Feminismo em tempos de Pandemia

20-12-2020

 A pandemia exacerbou quase todo o tipo de injustiça social. Matou desproporcionalmente mulheres pobres, indígenas e negras. As mulheres da classe trabalhadora, não só correm mais risco de contrair o vírus como também estão "sobre representadas" no desempeno de funções de cuidados essenciais.Esta crise tem trazido alguma iluminação às desigualdades que existem nas nossas sociedades, e até mesmo às inadequações dos sistemas de saúde. 


Quando refletimos sobre a situação atual do mundo não só estamos a viver uma crise de saúde pública e económica, como também uma crise feminista. Desde o início da pandemia que muitas mulheres se têm visto forçadas a sair dos seus trabalhos. Com o fecho de escolas e o isolamento doméstico, o trabalho de cuidar de muitas crianças passou diretamente para as mães, que não só têm de trabalhar através de casa em situações precárias, como também tomar conta dos seus filhos. Muitas delas têm ainda de se preocupar com o trabalho doméstico. 

Em Portugal, foi lançado um estudo que indica que as mulheres têm enfrentado um maior stress durante a pandemia. Em grande parte dos relacionamentos é mais provável as mulheres ganharem menos do que os homens, o que significa que os seus empregos são considerados de menor prioridade quando surgem interrupções. E essas interrupções específicas podem durar meses, em vez de semanas. Os ganhos vitalícios de algumas mulheres nunca serão recuperados. 

Comparando com crises anteriores, os salários dos homens voltaram mais rápido ao que ganhavam antes do que os salários das mulheres. A recessão económica desencadeada pela pandemia prejudicou desproporcionalmente os setores de serviços dominados pelas mulheres, o que significa que, desta vez, ao contrário da recessão de 2008, as mulheres constituem a maioria dos novos desempregados. Algumas responsabilidades, como por exemplo cuidar de idosos, que antes eram difundidas em serviços públicos ou empresas comerciais, agora também estão a ser restringidas em casa. 
A vida das mulheres ficou mais sobrecarregada, menor e menos livre. Todos têm a obrigação de saúde pública de ficar em casa, mas só as mulheres têm a responsabilidade socialmente imposta de assumir trabalhos domésticos desproporcionais enquanto lá estão. 
Falemos também do feminicídio. Um estudo lançado no ano de 2019 em Portugal constata que nos últimos 15 anos já foram assassinadas mais de 500 mulheres. Desde o início da pandemia que os crimes de violência doméstica (incluindo feminicídio) têm aumentado, visto que muitas de nós somos obrigadas a ficar confinadas com os nossos agressores. Em dezembro de 2020 mais de 30 mulheres foram assassinadas em Portugal (mais de metade em contexto de violência doméstica). Temos de continuar a realçar a importância das políticas públicas. É através da luta por políticas identitárias e a comprometermo-nos a lutar contra a violência de género que caminhamos para um mundo menos desigual e sem violências e abusos machistas.


Catarina Rodrigues 

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