COVID-19 enfatiza novamente sinais de ódio em função da etnia nos EUA

20-02-2021

 No passado dia 28 de janeiro foi noticiado um pouco por todo o mundo o acontecimento que resultou na morte de um idoso em São Francisco, Califórnia. Vicha Ratanapakdee, tailandês de 84 anos vivia atualmente nos Estados Unidos da América para poder dar apoio à sua família e ajudar a tomar conta dos netos.

  O momento fatídico captado pelas câmaras de vigilância do bairro onde o idoso se encontrava, vídeo posteriormente divulgado por inúmeros agentes de comunicação, mostra um indivíduo vindo do outro lado da rua e a empurrar a vítima violentamente contra o chão. Logo a seguir, o agressor vira costas e prossegue com o seu trajeto. Numa entrevista concedida à FOX KTVU, a família não hesitou em considerar o ataque motivado por ódio contra a comunidade asiática.

   Na verdade, também Kim Ratanapakdee, filha da vítima, sente que tem sido frequentemente alvo de ofensas verbais devido à sua etnia, tudo isto após o vírus COVID-19 ter alcançado a dimensão pandémica. (Sernoffsky, 2021)

Situações como a descrita retratam a assustadora simplicidade da violência gratuita em função da mera intolerância daqueles que nos rodeiam. Tudo indica que a agressão não foi em seguimento de qualquer ato provocatório, não só porque é isso que as imagens mostram, mas também porque o agressor tem apenas 19 anos e é, ao que parece, saudável e sem qualquer limitação física. A acusação contra este jovem implica um crime de homicídio e maltrato de idosos. Por vezes consideramos que as gerações mais jovens possuem toda uma capacidade visionária e "mente-aberta" para lidar com determinados contextos, e por isso pode custar a acreditar que um ato de cariz racista como este fosse perpetrado por um indivíduo que, no seu país, não tem ainda sequer idade legal para consumir bebidas alcoólicas. Contudo, talvez o mais dramático é mesmo o facto deste atacante se ter insurgido violentamente sobre uma pessoa desconhecida, mais velha e frágil e sem qualquer razão plausível. Aliás, falamos de um homicídio, e como tal, nenhuma razão seria forte o suficiente para justificar por termo à vida de outro.

Infelizmente, só acontecimentos correspondentes a este nível de brutalidade são dignos de serem noticiados pelos órgãos de comunicação e, em sequência, permitir dar voz às comunidades que, à semelhança de outras, também muito se tem debatido pela sua segurança, proteção e direitos. Há já cerca de um ano que se tem vindo a registar, manifestamente nos EUA, um significativo aumento de situações de violência verbal e física motivadas por ódio contra a comunidade asiática no país. Contudo, apenas uma fatalidade como a que vitimou Vicha Ratanapakdee foi capaz de obrigar a que este problema fosse discutido em grande escala.

No passado dia 18 de fevereiro o site da revista TIME partilhou o testemunho de um jovem médico, descendente de pais chineses e residente nos EUA, que é neste momento um dos profissionais de saúde na linha da frente no combate à COVID-19, no NYU Langone Medical Center. Chen Fu confessou sentir um misto de emoções, por sentir a gratidão por parte da população relativamente aos profissionais de saúde, mas ao mesmo tempo por ter já experienciado julgamento e culpabilização vinda de meros estranhos, simplesmente por ser asiático. O médico relatou também que, nos dias que correm, sente mais preocupação com a segurança dos seus pais, que também residem nos EUA, do que com o facto de lidar diariamente com pacientes infetados com COVID-19. Contou que o carro da sua mãe foi danificado, tendo sido destruído o vidro para-brisas e que outros cidadãos ásio-americanos seus conhecidos também sofreram ataques ou ofensas do mesmo género. (Lang, 2021)

No mesmo artigo da revista TIME é citada a exposição que a ativista Amanda Nguyen fez na rede-social Instagram a apelar para que fosse dada a devida relevância à gravidade destes atos, fazendo referência a tantas outras situações de violência contra cidadãos asiáticos em solo americano, sendo que quase sempre as vítimas tinham mais de 60 anos. A suportar estatisticamente estes acontecimentos é referenciado o relatório da Polícia de Nova Iorque (NYPD) que contabiliza um aumento de 1900% dos crimes de ódio contra a comunidade asiática, em 2020. (Lang, 2021)

Numa primeira interpretação, a tendência é para afirmar que está a nascer uma crise da coesão e integração social, e mais uma luta contra a discriminação e ódio racial. Porém, esta interpretação é errada. Esta luta não é de todo nova e o racismo contra cidadãos de ascendência asiática não nos é trazido pela pandemia. Aliás, importa relembrar que a Ásia não se restringe à China, Japão e Coreias. A Malásia, Timor Leste, Bangladesh ou Índia também fazem parte do mesmo continente, e os cidadãos nativos destes países são também recorrentemente alvo de atos de ostracização e discriminação. A verdade é que a pandemia veio agravar a dimensão de um problema que já existia, mas que era ignorado por nunca atingir proporções como as que agora verificamos.

O site 'Eater' também abordou o problema com, talvez, o título que melhor ilustra esta onda de violência. "COVID Doesn't Discriminate. But People Do." Foi a afirmação escolhida para encabeçar mais um artigo a condenar os ataques que têm ocorrido. (Zhang, 2021)

É utópico, e talvez até poético, afirmar que, numa época conturbada e de grande instabilidade a vários níveis da sociedade, é necessário sermos solidários com o próximo e estendermos a mão a quem precisa. De facto, o ideal seria que contextos de grande dificuldade global trouxessem ao de cima o melhor de nós. Hoje verificamos que o que acontece é exatamente oposto. O clima de receio e incerteza do amanhã instalado pela pandemia tem levado as pessoas, de um modo geral, ao limite. Claro está, aqueles capazes de gerir minimamente as suas emoções e discernir entre o certo e o errado nunca se ousarão a cometer atos como os aqui referenciados. Por outro lado, é certo que essa capacidade não está presente em todas as pessoas.

O mais grave de todo este problema culmina no facto de a característica comum a quase todas as vítimas ser a sua fragilidade por serem idosas. Evidencia-se então que estes agressores procuram apenas um alvo fácil onde depositar a sua raiva e frustrações, fazendo-o em pessoas completamente inocentes e incapazes de se defender adequadamente. Estes acontecimentos vão para além da não aceitação de outra cultura. Retratam o desrespeito e descrédito pelas gerações que contribuíram para construir o mundo que nos rodeia. São, a par das crianças, uma faixa etária que carece de proteção. Estas pessoas podiam ser os nossos pais ou avós se os mesmos estivessem noutro país, integrados noutra cultura, e se contexto fosse inverso. É necessário fomentar o debate sobre estes problemas e conceder-lhes a devida atenção, só assim se proporcionarão as condições para que sejam tomadas medidas que assegurem a proteção das camadas mais frágeis destas comunidades. A solução está em prevenir que mais inocentes sejam vitimados, pois nem sempre a justiça em tribunal permite remediar as consequências destes crimes.


Catarina Lalanda 

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