Chalupas pela verdade
26-11-2020

Esta crise pandémica, onde estamos reféns de um inimigo invisível, deu aso a múltiplas teorias da conspiração, umas mais criativas, outras mais descabidas. Há para todos os gostos. Todas igualmente mirabolantes que dão prioridade às crenças pessoais de cada um e desprezam todo o trabalho levado a cabo pela ciência. Por norma, quando não existe uma explicação lógica para algum acontecimento, algo que nos dê certezas, desde logo a imaginação fértil de muita gente entra em ação.
Não tardaram em surgir páginas como: "Médicos pela verdade, Advogados pela verdade, Jornalistas pela verdade" que vociferam por aí que esta pandemia se trata de uma farsa. Porque é que este grupo restrito de pessoas acha que tem acesso a informação que mais ninguém consegue ter?! Mais, até pode existir uma conspiração mundial, um plano ultrassecreto, mas lá está se é secreto por que raio uma minoria de pessoas teve acesso. Só poderão ser chalupas pela verdade, não é possível que o mundo inteiro esteja a vivenciar uma paranoia coletiva. Nem mesmo o melhor guionista de novelas da TVI se lembraria de um enredo com esta complexidade.
A lógica adotada é verdadeiramente fascista onde, segundo consta: Todos mentem e apenas eles dizem a verdade. Pintam a realidade à sua maneira, criam os seus próprios factos, vêem a verdade como um ponto de vista e banalizam a realidade. Em boa verdade ser médico pela verdade é bem mais fácil, basta zurrar.
O problema disto tudo é que estão isentos de qualquer escrutínio e podem disseminar as maiores barbaridades sem qualquer base factual e reina a impunidade. Julgam-se mais que os outros, a verdadeira "chique-espertice" à portuguesa. É nestas alturas que temos de estar alerta porque como bem se sabe quem quiser enganar, encontra sempre alguém para ser enganado.
Relembrando a famosa frase da filósofa Hannah Arendt: "A liberdade de opinião é uma farsa, se a informação factual não tiver garantida e os factos, eles mesmos em disputa". É importante ter isto em mente: uma sociedade mal informada, toma más decisões. Há que contrair isso ouvindo as fontes fidedignas.
No entanto, estes fenómenos não são de admirar... as redes sociais deram palco a muita gente indesejável, neste meio todos se podem fazer passar por aquilo que não são e por esta altura por médicos, epidemiologistas, virologistas, tudo e mais alguma coisa. Julgam-se donos de verdades absolutas e não aceitam contraditório, quando no fundo é isso mesmo que andam a fazer a quem realmente está no terreno a dar tudo o que pode em nome do bem comum.
Estes treinadores de bancada com estas teorias estão a atrair pessoas para uma vigarice. Ao incentivarem a utilização de más praticas, o resultado é o que está à vista: uma escalada no número de casos. À conta de muitos negacionistas o número não para de disparar. Esta irresponsabilidade pode detonar por completo o nosso sistema de saúde. Se este tipo de comportamento perdurar, não iremos conseguir ultrapassar o maior desafio deste século.
Relembro uma coisa: quando a Volvo decidiu implementar o cinto de segurança obrigatório nos anos 70, desde logo houve um finca pé tremendo, todos se opunham porque "violava os direitos humanos" e mil e uma coisas. Por norma o que pode mudar algo por completo é sempre controverso, é a conclusão que se pode chegar. Salvaram-se milhares de vidas. É exatamente isso que acontece com a utilização de máscara. E que não restem dúvidas, se entrarmos nesta tendência de minar a credibilidade das instituições isso irá gerar desconfiança, logicamente, logo o caos alcançará dimensões que se calhar não queremos imaginar: o verdadeiro pandemónio.
Ainda que mal pergunte: Quem é que queria ser decisor político nesta altura? Independentemente do partido, os políticos querem ser populares, não odiados, não cabe na cabeça de alguém estas insinuações. O que se está a passar nas redes sociais com esta disseminação de desinformação, é uma verdadeira palermice...
Das duas, uma: se estão pela verdade e quem está no terreno está pela mentira, muito bem, caso venham a ficar infetados não deveriam ter acesso direto ao SNS. Não mereciam a universalidade deste serviço. O que se está a passar é inconcebível.
Em jeito de brincadeira, nesta pandemência, só falta mesmo aparecer por aí os «Padeiros pela verdade» a advogarem que tudo se trata de uma conspiração mundial da Bimby com o objetivo de pôr a malta toda em quarentena a fazer pão (a verdadeira pãodemia) e deixa-los no desemprego. Só falta mesmo isso...
João Pedro Canário